Lindas – e em paz com as rugas



Malu Mader, de 41 anos, gosta de dizer que não levanta nenhuma bandeira contra o Botox, mas prefere passar longe das agulhadas na testa. Diz que não gosta do resultado e que teme o processo. Denise Fraga, de 42, acha que “todo mundo enlouqueceu um pouco” com a obsessão de se manter jovem. “Existem outras belezas, que não são da pele lisa e esticada. É tão bonita uma ruga”, diz. Christiane Tricerri, de 46 anos, afirma que também nunca usou a toxina botulínica e que não pretende fazê-lo. Mas a septuagenária Karin Rodrigues brinca quando diz que “ainda não sentiu necessidade” de recorrer à agulha. “Quem sabe mais tarde?”, pergunta, irônica. Malu, Denise, Christiane e Karin são atrizes que não se curvam aos padrões de beleza e vêem os sinais do tempo com relativa naturalidade. Como elas, há uma boa parcela das mulheres que gosta de se cuidar com massagens, cremes e outros tratamentos, mas abomina intervenções artificiais.

“Muitas mulheres estão se rebelando contra esses modelos históricos e perversos, que não têm nada a ver com nossas raízes”, afirma a historiadora Mary Del Priore, autora de Corpo a Corpo com a Mulher: Pequena História das Transformações do Corpo Feminino (editora Senac). “Em um país mestiço como o nosso, é um contra-senso cultuar a Barbie”, diz Mary. “Essa histeria em usar Botox e fazer cirurgias plásticas mostra desconexão com nossa identidade”.

Para a antropóloga Mirian Goldenberg, que lançou recentemente O Corpo como Capital (editora Letras e Cores), a mulher brasileira tem muito a ganhar se não se submeter às torturantes pressões estéticas. “O início do século XXI tem sido um período marcante de culto exagerado ao corpo, especialmente no Brasil. Muitas mulheres se sentem inseguras e tristes por não exibir rostos e formas lisos e jovens. Mas por que dar tanto valor a algo efêmero? As européias costumam se valorizar pelo que são e fazem, não pelo corpo que têm. Sentem-se bem e irradiam essa alegria. Isso é beleza”, diz Mirian, de 50 anos, ela mesma um exemplo de mulher à vontade na própria pele. “Minhas rugas não me assustam, porque contam minha história. E me sinto bonita com elas”.

Há alguns anos, quando filmava Sexo, Amor & Traição, Malu Mader ouviu de um maquiador que estava franzindo muito a testa. “Respondi que, sendo atriz, eu franzo a testa, tenho expressões”, lembra ela, rindo. “Nunca usei Botox nem fiz cirurgia plástica. Mas eu também não me vanglorio disso, porque entendo quem faça. Não gosto de ficar criticando quem se submete a esses métodos porque essa é uma decisão muito particular, cada um tem seus motivos”, afirma. “Não fiz porque não gosto dos resultados e também porque tenho medo”, diz. Malu credita esse temor à temporada que passou em hospitais, há três anos, por conta da descoberta e da retirada de um cisto benigno do cérebro. “É um lugar que eu realmente evito, por isso não está nos meus planos nenhuma intervenção estética”, afirma.

Malu ressalva que pode um dia mudar de idéia. “Afinal, a mulher é um bicho cíclico. Quando acorda decidida que vai mudar algo, vai e faz”. Por enquanto, prefere não arriscar. “Acho que é preciso reconsiderar essas decisões repentinas, pensar melhor. Qualquer intervenção mínima envolve riscos, até o Botox. Será que vale a pena?”

Especialista em massagens e tratamentos naturais, a esteticista paulistana Roseli Siqueira vive “apagando incêndios” – como diz – ao tentar reverter a aparência de clientes que exageraram na dose da toxina. “Elas chegam sem expressão e querem um rosto de verdade outra vez”, diz Roseli. “Ao paralisar os músculos, a toxina botulínica também atrapalha a circulação de energia. O resultado é um rosto sem vida”, afirma a esteticista, para quem o tratamento ideal acontece “de dentro para fora”. “A massagem profunda tem o poder de enrijecer músculos e atenuar marcas de expressão, só que de uma forma natural”.

Zezé Polessa, Angelita Feijó e Fafá de Belém, entre outras famosas, são clientes assíduas de Roseli, que usa os dedos e as palmas das mãos – e cosméticos à base de flores e ervas – para recuperar brilho, viço e beleza de peles desgastadas. Algumas clientes também chegam com sinais de plásticas malsucedidas. “Aí, o estrago é maior, mas mesmo assim é possível melhorar”, diz Roseli, de 52 anos, segundo ela, conservados dentro da mesma rotina que sugere às clientes: alimentação saudável, exercícios físicos, ginástica facial e, semanalmente, uma massagem que tem o dom de desintoxicar a pele, ativar a circulação e levantar a expressão.

Adepta de longas sessões de beleza em sua casa, quando gosta de experimentar máscaras e cremes, a atriz Christiane Tricerri também aposta na ginástica facial. Expressiva da ponta do pé à raiz dos cabelos, ela diz que mantém o corpo e a cara com uma receita que inventou para si e tem dado certo: “Colar a pele nos ossos”. Como? “É como se fosse um s exercício diário de lembrar que não devemos relaxar a musculatura totalmente. Ela tem de estar viva. Tensa, não, mas viva. É como trocar tensão por tesão!”, diz a atriz, conhecida pela irreverência.

Essa opinião é partilhada por Denise Fraga, para quem o verbo adequado é “tonificar”. “Isso significa manter o músculo vivo”, afirma. Às voltas com os ensaios de um novo espetáculo, a atriz diz que não pretende passar por nenhum procedimento invasivo. “Pretendo não fazer nada. Acho que existem outras belezas. É tão bonita uma ruga.

Vejo minha sogra, de 70 anos, que corre, se cuida e mantém uma relação saudável com a beleza, nunca fez plástica. Na minha profissão, o grande barato são os personagens e a capacidade de se multiplicar. E como encarnar aquela mãe sofrida do Nordeste com um rosto esticado, sem expressão?”, pergunta. Para Denise, a “neura” anda passando da conta. “Ao abrir a porteira para a primeira plástica, a coisa começa. Primeiro, você tira uma bolsinha debaixo dos olhos; depois, acha que pode dar uma leve ajustada no nariz... e é aí que mora o perigo, porque pode perder a naturalidade.”

“É uma inversão de valores”, afirma o psicanalista Luiz Tenório de Oliveira Lima. “Claro que vale se cuidar, um sinal de auto-estima, mas é essencial ser contemporâneo de si próprio e fugir do padrão opressor. Algumas mulheres, na tentativa de se parecerem jovens, com a aparência das filhas, acabam caindo no ridículo”. Segundo o psicanalista Jorge Forbes, presidente do Instituto da Psicanálise Lacaniana, vive-se uma época de altíssima valorização de imagem. “Isso faz com que as pessoas avaliem sua imagem pelo olhar do outro. Todos querem ser aceitos e acreditam que a melhor forma é fazer o que se espera deles. É um método covarde e acomodado”, diz Forbes.

O cobiçado modelo europeu da mulher loira, alta, magra e de olhos azuis é exatamente o perfil da atriz Karin Rodrigues. Linda na juventude, ela continua bela aos 72 anos. E sem nenhum retoque. “Sempre tive consciência de não investir em uma guerra que eu poderia perder. Estou bem comigo mesma”, diz Karin, viúva do ator Paulo Autran, com quem contracenou no ano passado em O Avarento. Seus “segredos” se resumem a caminhadas diárias, cuidados com o jardim, leitura, bordados e brincadeiras com os cachorros em sua gostosa casa nos Jardins, em São Paulo.

Em fevereiro, numa entrevista à coluna de Mônica Bergamo na Folha de S. Paulo, Ana Paula Arósio, de 32 anos, declarou que se recusava a colocar Botox. “Já me pediram para botar, mas eu não ponho! Demorei anos para ter esta cara, esta expressão”. Ana Paula observa que, com a chegada da TV de alta definição, o público terá de se acostumar com as olheiras e as espinhas dos atores. “O teatro precisa de rugas”, lembra a escritora e produtora teatral Célia Forte, que está escrevendo uma peça sobre o tema beleza e envelhecimento. “Atrizes inglesas, como Vanessa Redgrave, se recusam a entrar na faca para rejuvenescer”. Segundo Célia, o teatro escapou da obsessão pela beleza, pelo menos por enquanto. Nos tablados, as estrelas maduras brilham sem culpa. Talvez a alta definição traga para a TV digital a mesma serenidade diante das rugas.

Matéria de Chantal Brissac, para a coluna Saúde & Bem-Estar da Revista Época, publicada em 28/04/2008.









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