Entrevista ANFARMAG
Claudia Boscheco, farmacêutica especialista em Ciências Farmacêuticas na área de Atenção Farmacêutica e responsável pelo setor na Apparenza, concedeu esta entrevista - aqui apresentada na íntegra - para Van Lopes, editora executiva da Revista ANFARMAG, órgão oficial da Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais, para a edição Nº 56 Ago/Set 2005, que teve a Atenção Farmacêutica como matéria de capa.


1. Como você definiria atenção farmacêutica?
A Atenção Farmacêutica (AF) compreende uma série de atitudes do farmacêutico para a prevenção de doenças, promoção e recuperação da saúde, de forma integrada à equipe de saúde. Nela o farmacêutico atua junto ao paciente, visando uma farmacoterapia racional e a obtenção de resultados voltados para a melhoria da qualidade de vida.

2. Qual o objetivo da Atenção Farmacêutica?

A AF tem como objetivo maior prevenir e resolver problemas relacionados ao uso de medicamentos, os PRMs. Pretende estimular o uso racional, garantir a efetividade e a segurança do tratamento farmacológico do paciente, bem como realizar atividades de educação em saúde a fim de trabalhar preventivamente com a população.

3. Quais são os passos da Atenção Farmacêutica?

Para conseguir atingir os objetivos propostos, a AF abrange outras atividades. Dentre elas, a dispensação ativa, a indicação farmacêutica, a educação em saúde e o acompanhamento farmacoterapêutico (AFT). O AFT pode ser didaticamente dividido em 8 etapas consecutivas: oferta do serviço, primeira entrevista, estado de situação, fase de estudo, fase de avaliação, fase de intervenção, resultado das intervenções e novo estado de situação. É através desta ordem que estabelecemos a rotina de trabalho. Aparentemente complexa, mas muito fácil de ser aprendida e executada.

4. Porque você decidiu se especializar em Atenção farmacêutica?

A principal razão foi pela necessidade de preencher muitas lacunas em conhecimentos que infelizmente a graduação não aborda ou o faz de forma superficial. Outro fator determinante foi o interesse pela docência, próximo passo a ser conquistado.

5. Há quanto tempo você atua nessa área? Como é seu dia a dia?

Trabalho com AF há três anos. Durante um ano e meio trabalhei através de projetos de extensão realizados pelo programa PET- Farmácia da UFPR, do qual fui bolsista. Há um ano e meio trabalho no Programa de Atenção Farmacêutica Apparenza, por mim idealizado, implantado e exercido na Apparenza Laboratório de Manipulações Cosméticas e Farmacêuticas – Curitiba/PR. Dedico meio período das minhas atividades na empresa à AF, normalmente no período da manhã. Reservo este tempo para as entrevistas com os pacientes e o acompanhamento de cada caso. Todos os dias aparecem casos diferentes, o que é muito construtivo. Nos faz estudar muito, enriquecendo nossos conhecimentos para que nossas intervenções sejam coerentes e realmente úteis.

6. Quantos pacientes cadastrados você já possui?
Aproximadamente 375 pacientes já foram beneficiados de alguma forma através do Programa de Atenção Farmacêutica Apparenza. Cerca de 250 foram atendidos na Semana Apparenza de Prevenção e Cuidados à Hipertensão Arterial, campanha que tinha por objetivo a detecção precoce de casos ainda não diagnosticados de H.A.S. e casos já em tratamento, que não estava sendo efetivo, para o encaminhamento ao serviço médico. Aproximadamente 25 pacientes portadores de diabetes mellitus tipo II estão sendo acompanhados pelo Projeto de Acompanhamento ao Paciente Diabético, realizado em parceria com a UFPR e com a Universidade de Granada (Espanha), com o intuito de comprovar cientificamente os benefícios que a Atenção Farmacêutica tem proporcionado a estes pacientes. E além destes pacientes, há cerca de 100 em acompanhamento ou já acompanhados por diversos motivos, sendo os mais comuns ligados à reações adversas a medicamentos (RAM). É importante dizer que as RAM são notificadas à ANVISA, pois também é nosso dever contribuir com a farmacovigilância nacional.

7. Você pretende atender somente pacientes de uma determinada doença como diabetes, hipertensão? É muito difícil restringir o atendimento a apenas estas duas patologias, pois normalmente há outras associadas. Decidimos escolher estes dois públicos-alvo pois são a grande maioria de nossos clientes, que desejamos beneficiar. Focando o trabalho em públicos-alvo ele torna-se muito mais produtivo em termos de divulgação e obtenção de resultados. Além disso, facilita o estudo e direcionamento de investimentos em literatura e cursos aos farmacêuticos. Poderemos ser muito mais úteis se estivermos com nossos conhecimentos melhor fundamentados em determinadas áreas. Assim como nossos colegas da área de saúde se especializam em determinadas áreas considero bastante produtivo a “especialização” do farmacêutico em determinadas patologias.

8. Quando começa um trabalho com um determinado paciente, quais são os primeiros passos?
O primeiro passo é agendar uma entrevista, a fim de conhecer o paciente. Neste primeiro contato é importante acolhê-lo, para que passe a ter confiança em nosso trabalho. Como a AF é um serviço extremamente novo e ainda pouco conhecido, é de fundamental importância que o farmacêutico esclareça esta prática, como irá proceder, quais os benefícios que seu trabalho irá trazer à sua saúde e, principalmente, deixar muito claro que o trabalho vem para acrescentar ao do restante da equipe de saúde, e não para entrar em conflito ou substituir nenhum deles.
Também é fundamental conhecer a história de vida desta pessoa, o meio em que vive, quais suas crenças e sua cultura, pois o paciente precisa ser visto como um todo, não apenas como uma patologia tratada através de determinada estratégia terapêutica. Estas informações muitas vezes são fundamentais ao entendimento da origem de suas patologias e do resultado de seu tratamento.
Todas estas informações podem ser obtidas durante a construção do estado de situação, que levanta todos os medicamentos utilizados pelo paciente, a forma como são usados, resultados destes tratamentos e hábitos de vida do paciente. Desta forma, os dados são obtidos sem que se pareça uma investigação.

9. Depois do primeiro contato com o paciente como é feito o acompanhamento farmacoterapêutico?
O AFT é iniciado com a compilação e organização de todos os dados para então ser iniciada a fase de estudos. Nesta fase todos os medicamentos são estudados detalhadamente a fim de avaliar a necessidade, efetividade e segurança do tratamento, bem como cuidados prévios e monitoramentos necessários. Com estes dados em mãos, se alguma intervenção for necessária, será prontamente providenciada. Estas intervenções, dependendo da natureza do PRM, poderão ser realizadas diretamente com o paciente ou através de contato com seu médico.

10. De quanto em quanto tempo você vê o seu paciente?
Não há uma regra. Depende de cada paciente, da patologia que possui, de sua gravidade, da disponibilidade do paciente em estar realizando exames e do próprio tratamento escolhido pelo médico. Pacientes hipertensos com a pressão não controlada, por exemplo, podem ser acompanhados diária ou semanalmente até que a P.A. seja regularizada. Após estabelecido o controle, este acompanhamento pode ser realizado em um intervalo maior de tempo.
Pacientes em tratamento de osteoporose, por exemplo, podem ser acompanhados semestral ou anualmente, já que os resultados do tratamento não são imediatos e realizam exames semestrais ou anuais.

11. Geralmente quanto tempo em média dura o acompanhamento da Atenção Farmacêutica? Se for uma doença crônica é constante?

O AFT dura até que todos os problemas de saúde sejam resolvidos ou controlados e, novamente, não há uma regra. Pacientes que possuem patologias crônicas merecem acompanhamento constante e periódico, especialmente quando novos medicamentos são adicionados ao tratamento ou quando medicamentos são retirados. Não há um tempo definido, é particular a cada caso.

12. Depois de quanto tempo é feita uma avaliação de resultados?
Em geral oriento os pacientes a retornarem sempre que estiverem com resultados laboratoriais em mãos, quando o tratamento acompanhado permite ser mensurado por meio de exames. Há casos especiais como tratamentos com antidepressivos, em que precisamos aguardar até 2 meses após o início do tratamento, pois os medicamentos precisam deste tempo para mostrar efetividade.

13. Como é seu relacionamento com outros profissionais, como os médicos que tratam e prescrevem os medicamentos aos seus pacientes?
O relacionamento também é bastante variável. Há médicos que ainda se mostram resistentes ao trabalho, mas há muitos que reconhecem sua importância, falando até mesmo em planos de contratação de farmacêuticos para atuarem em suas clínicas, agregando a AF aos seus pacientes. O mais importante é não ficar alimentando falsas expectativas sobre nossos colegas. Eles são profissionais de saúde como nós e muitas vezes possuem tantas dúvidas e incertezas quanto nós, farmacêuticos. Por isso o trabalho de esclarecimento sobre a AF é importante, para que consigamos quebrar barreiras preconceituosas e então trabalharmos de forma integrada.

14. Você acha que um paciente que tenha atenção farmacêutica aliada ao tratamento médico traz uma melhor qualidade de vida?
Não posso simplesmente achar. Os estudos para comprovar esta afirmação ainda são insuficientes, mas há evidências de que a Atenção Farmacêutica proporciona melhor qualidade de vida.

15. Hoje atuar na atenção farmacêutica pode gerar o verdadeiro reconhecimento do farmacêutico, que não é somente de vender remédio, mas sim de promover a saúde das pessoas?
Atuar na Atenção Farmacêutica pode com certeza proporcionar o verdadeiro reconhecimento do farmacêutico perante os demais profissionais de saúde de pela população, pois nossa função não se restringe apenas a vender medicamentos. Restringiremos se for de nossa vontade. Por intermédio da AF é possível realizar um trabalho muito mais completo e complexo, de educação em saúde, da dispensação ativa, da orientação e indicação farmacêuticas e, claro, do acompanhamento farmacoterapêutico. Mas, para que obtenhamos o reconhecimento que almejamos, é necessário assumir as limitações que nossa formação essencialmente técnica impõe e buscar formação continuada. Enfim, muito estudo. O farmacêutico que se dispõe a praticar a AF com certeza só terá a ganhar, tanto em termos de reconhecimento quanto de conhecimento. E ambos são fundamentais.

16. O que mais você gostaria de nos contar para que deixe nossa matéria mais completa? Gostaria muito de falar a respeito de minha trajetória, pois pode incentivar muitos colegas a enfrentar os desafios da Atenção Farmacêutica e até mesmo implantar projetos semelhantes em seus locais de trabalho.
O interesse pela AF aconteceu por acaso, pois ainda na faculdade necessitava fazer uma disciplina optativa e a única que tinha vagas disponíveis era a de AF. Como não tinha outra alternativa tive que fazer.
O interesse surgiu logo nas primeiras aulas, pois os propósitos e desafios da AF pareciam-me realmente fascinantes! Além disso, era uma disciplina que proporcionava a integração de todas as disciplinas já estudadas, como a farmacologia, fisiologia, patologia, e outras que nunca teríamos na faculdade, como a psicologia. Mesmo tendo feito as disciplinas de Atenção Farmacêutica I e II durante a graduação, sentia que ainda havia muitas lacunas e que ainda havia muito a ser aprendido.
No ano de 2003, quando ainda estava no quinto período da faculdade abriu o curso de Pós Graduação em Atenção Farmacêutica na UFPR, faculdade pela qual me formei. Foi então que vi a oportunidade de aprofundar meus conhecimentos. Para tanto, tive que colar grau antecipadamente e enfrentar uma série de barreiras, mas os esforços valeram a pena. Recebi o convite para integrar o Grupo de Pesquisas do Projeto de Acompanhamento ao Paciente Diabético, realizado em parceria com a UFPR e com a Universidade de Granada, transformando posteriormente a Apparenza em um dos núcleos de estudos.
Meu ideal era trabalhar especificamente com AF, mas não havia campo de trabalho. Como precisava trabalhar, pois toda a bolsa que recebia pelo PET estava destinada à pós graduação, decidi elaborar um projeto e apresentar à diretoria da Apparenza, Laboratório em que havia feito meu estágio obrigatório em farmácia e de que tanto havia gostado. Foi importante mostrar a relevância da AF para a empresa e para os clientes, bem como sua viabilidade, custos e resultados pretendidos. O projeto foi aprovado e hoje comemoramos mais de um ano de AF.
Hoje, com a AF implantada e em pleno funcionamento, fazemos trabalhos de divulgação entre a população, para que saibam o que o farmacêutico pode fazer em seu benefício. Além disso, estamos iniciando um trabalho com a classe médica, a fim de mostrar nossos objetivos e quebrar possíveis barreiras conflitivas, para facilitar nossas intervenções e o trabalho futuro dos demais colegas farmacêuticos.
Outra atividade importante é a elaboração de vídeos educativos que ficam constantemente em exibição na recepção do laboratório. Representam uma forma conjunta de entretenimento e informação bastante útil aos clientes que aguardam ser atendidos.
Considero um trabalho modelo, porque tem dado resultados muito bons. É a concretização do fascínio da teoria, que foi colocada em prática.
Hoje, é muito gratificante ver os resultados do serviço prestado, da estrutura construída e da equipe formada. Mais do que ter uma “ilha” de AF, isolada e distante do restante da farmácia, percebemos a importância da formação da consciência e comprometimento de todos os funcionários com a saúde e bem estar daqueles que necessitam de nosso trabalho. Foram conquistas a longo prazo e ainda há muito a ser construído e melhorado.
Agradeço a todos os colaboradores, muito importantes para a concretização de um sonho. Convido a todos os interessados a conhecer nossa experiência, deixando as portas da Apparenza abertas para compartilhar uma experiência que deu certo!

Muito obrigada!

“ A nossa vontade de andar é que cria o caminho”

17. Você pode, por favor, nos passar seu nome inteiro e cargo.


Claudia Boscheco - farmacêutica







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